quarta-feira, 28 de abril de 2010

O amor não é crime

Ultimamente dou por mim a pensar cada vez mais porque é que sinto a necessidade de esconder o meu amor pela mulher que amo. Sinto necessidade de esconder o olhar, de não dar as mãos, de não a abraçar, de não a beijar. Eu sinto esta necessidade, mas olho à minha volta e não vejo os outros a sentirem isso. Até fazem por mostrar. Porque é que eu sinto esta necessidade? O que é isto que me trava as acções quando está gente à minha volta? Mas eu estou a fazer alguma coisa de mal? Tenho de me esconder, como se estivesse a cometer algum crime? Não.

Sou homossexual? Não me lembrava, raramente me lembro. Mas e que tem isso? Não sou uma pessoa? Não sou igual a tantas outras, com defeitos e qualidades, com direito a ser feliz? Claro que sou. Não têm todas as pessoas direito a ser felizes, sejam heterossexuais ou homossexuais, com a pessoa que amam? Claro que têm.

Então eu pergunto, à maioria dos homossexuais ou bissexuais que por aqui passam: Porque é que continuamos a esconder? Porque é que continuamos a fingir sermos alguém que não somos nos almoços de família, nos intervalos da escola com os amigos, na pausa para o cigarro com os colegas de trabalho, no metro com os desconhecidos? Não vale a pena continuarmos a enganarmo-nos a nós próprios. Quando estamos em casa sozinhos pensamos para com os nossos botões: “Amanhã deixo de fingir. Amanhã enfrentarei o mundo de cabeça para cima.” E quando o dia chega escondemo-nos outra vez. Comigo é assim, admito isso com muita vergonha na cara.

Sei que há muitos senãos, muitos contras. Eu, que sou uma miudinha de vida fácil e feliz, sinto essas dificuldades. Nem consigo imaginar outras vidas mais difíceis. Mas não devíamos esconder quem somos. Não podemos esconder quem somos. Que caraças, é por escondermos que quando alguém dá um passo em frente e tenta ser VERDADEIRAMENTE feliz fica sem emprego, sem “amigos”, com todos os olhares em cima.Os “não-brancos” e “não-homens” não podem esconder quem são e é por isso que as suas lutas contam com mais vitórias que derrotas. Ao termos vidas duplas estamos a negar quem somos, estamos a dar-lhes razão quando dizem que somos diferentes. Temos todos que ganhar coragem e parar de ter medo de sermos felizes.
Tenho que ganhar coragem.

3 comentários:

adistancethere disse...

Estarei sempre aqui para tudo. Força !

Papoila e Orquídea disse...

Tens razão. Penso muito nisso, sabes? Penso na discriminação que faço a mim própria, nas razões que me levam a fazê-lo e no que sinto quando o faço. Ainda não sei dizer em voz alta "a minha namorada", ainda baixo o tom de voz quando se fala do tema...No outro dia imaginei um dia nacional da liberdade de expressão amorosa, ia ser bonito, não te parece? E, como dizes, era um passo gigante para que deixasse de ser aberrante, para que se compreendesse que, no fundo, é apenas amor.
Temos que ganhar coragem, sim. E temos já tanta gente que nos segura, não tem de ser tão difícil assim, pois não? Coragem...

Inês disse...

Pior é quando nos confrontam com a realidade e temos que negar, ou quando nos perguntam "então e namorados?".